De vagas em creches ao papel da família: quais os principais desafios da ‘Primeira Infância’ em Fortaleza

Primeira Infância: a atenção para a fase mais importante da vida Enquanto as palavras saem com erros de pronúncia e as brincadeiras ocupam a maior parte do ...

De vagas em creches ao papel da família: quais os principais desafios da ‘Primeira Infância’ em Fortaleza
De vagas em creches ao papel da família: quais os principais desafios da ‘Primeira Infância’ em Fortaleza (Foto: Reprodução)

Primeira Infância: a atenção para a fase mais importante da vida Enquanto as palavras saem com erros de pronúncia e as brincadeiras ocupam a maior parte do dia, os cuidados com os pequenos, frequentemente, não são vistos com a seriedade devida. Mas é na Primeira Infância, fase de 0 até aos 6 anos, quando acontece 90% das conexões neurais diretamente ligadas ao aprendizado, memória e habilidades físicas. Em Fortaleza, a garantia do desenvolvimento pleno dos bebês e das crianças dessa faixa etária esbarra no desconhecimento sobre esse termo, nos inúmeros prejuízos impostos pela desigualdade social e na falta de vagas em creches. Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp A cidade tem 28 mil crianças de até 3 anos matriculadas em Centros de Educação Infantil e creches parceiras – instituições conveniadas à Prefeitura – que somam 346 unidades da rede municipal. Ainda existem 2.800 pequenos do lado de fora por falta de vagas, de acordo com a Secretaria Municipal da Educação (SME). A Prefeitura atende 38% da população de 0 a 3 anos nessas unidades de Educação, mas a meta estabelecida no Plano Municipal Pela Primeira Infância, em 2022, era a de chegar aos 50% até 2025. Educação na Primeira Infância tem impactos no longo prazo. Carlos Marlon. Essa dificuldade histórica para a ampliação de vagas na Educação Infantil impacta não só o cotidiano dos pais que precisam trabalhar, mas também o futuro de várias gerações. Nas unidades de ensino, são aprimoradas as habilidades cognitivas, motoras e emocionais, por exemplo. Contudo, ainda existe um desconhecimento sobre a relevância disso. Oito a cada 10 brasileiros (84%) não consideram os anos iniciais como fundamentais para o desenvolvimento humano. A informação faz parte dos resultados da pesquisa "Panorama da Primeira Infância: o que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida", realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha. O levantamento, lançado em agosto de 2025, reuniu respostas de 2.206 pessoas do País, sendo 822 responsáveis diretos por crianças de até seis anos. Falta de vagas em creches é problema histórico em Fortaleza. Carlos Marlon. Promover um ambiente adequado para essa faixa etária envolve diversos fatores, como explica Rui Aguiar, chefe do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Ceará. “A criança tem que receber afeto, atenção, alimentação adequada, carinho e proteção. Quando a gente falha como sociedade, nessa fase da vida, tem prejuízos que se acumulam durante toda uma existência”, alerta Aguiar. O comprometimento do futuro também é uma preocupação apontada por Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto do Vidigal. “Quando elas não têm as condições adequadas, há desperdício de capital humano, tanto da vida dessa criança, mas também da sociedade brasileira. Cuidar de uma criança, é cuidar de um país inteiro”, defende. Prejuízos da escassez Oito crianças correm num cômodo apertado e com pouca iluminação natural. São todos netos da vendedora ambulante Arizângela Gurgel Cardoso, de 45 anos, responsável pelos meninos e meninas enquanto as mães saem para trabalhar. “É uma loucura, (a rotina) é agitada porque é muito menino. Tem que fazer as coisas, limpar a casa, fazer comida e fazer tudo de casa e aí sobra tudo pra mim”, reflete Arizângela, sem esconder o cansaço. A situação de Arizângela também aparece na pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal: 31% dos entrevistados são avós ou bisavós das crianças cuidadas. As mães são 30%, seguidas dos pais com 19%. Arizângela se divide em cuidar dos netos e trabalhar, em Fortaleza. Thiago Gadelha/ SVM. O compromisso desejado pela avó é o de arrumar a mochila dos dois netos menores, mas essa realidade ainda parece distante. “Eles estão sem creche, dizem que não tem vaga. Uma já está lá, (na lista) vaga já desde o começo do ano passado, já vai entrar pro segundo ano e eles não dão a vaga. Todo dia eu estou lá pedindo, implorando, já chorei e fiz de tudo”, compartilha. Até que isso se concretize, ela mantém a esperança de ver os pequenos num ambiente mais adequado. “Eles são muito espertos e na creche vão aprender mais. Eu não tenho tempo de ensinar pra eles, só brincar um pouquinho, porque tem que ter amor”, pondera a avó. A vivência na creche Para a dona de casa Ana Carolina Pereira, de 24 anos, a espera para colocar o filho Gael na creche foi de um ano. O menino, agora com 2 anos, brinca incansavelmente ao lado dos três irmãos. “(Eles) Gostam de assistir, gostam de jogar, enchem meu celular de jogos. De manhã, eu ensino a tarefa dele e chega a hora de ir para a escola. Quando eles chegam, eu tenho que ir para o curso e dou meu celular para eles ficarem brincando com o pai”, conta Ana Carolina. Ainda de acordo com a pesquisa, as crianças de 0 a 3 anos ficam, em média, 2 horas assistindo TV ou usando celular, tablet e computador. Os maiores, de 4 a 6 anos, passam 3 horas em média. Para a Sociedade Brasileira de Pediatria, os menores de 2 anos não deveriam ter nenhum contato com telas. Já as crianças de 2 a 5 anos são recomendados a ficar, no máximo, 1 hora diante dos aparelhos. Na creche, Carolina consegue não só tirar o filho das telas e ter um melhor aproveitamento do tempo do menino, como também ajustar a rotina. “Me ajuda até para conseguir organizar o tempo da criança, alimentação é no horário certo. Eu vou resolver as coisas, vou no posto de saúde”, complementa. Ana Carolina reconhece a importância da Educação na Primeira Infância. Nilton Alves/ SVM. Monitoramento do cenário O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou ao Poder Público o dever de garantir o atendimento em creche e pré-escola às crianças de até 5 anos, em 2022. Mas, antes disso, o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará (Cedeca) começou a articular o acesso à Educação Infantil no Estado. “Em 2018, nós entramos com uma ação junto com o Ministério Público reivindicando essa ampliação das vagas já que, naquele contexto, havia um déficit de mais de 7.000 vagas”, lembra Carla Moura, Coordenadora do Núcleo de Monitoramento do Cedeca Ceará. Na época, a Justiça decidiu que o Município devia ampliar, no mínimo, 1.000 vagas por ano nas creches públicas. Na prática, isso é feito de duas formas: a construção de Centros de Educação Infantil e a formação de parceria com creches distribuídas pela cidade. Carla aponta que, no último ano, havia uma previsão orçamentária de R$ 45 milhões para a construção de Centros de Educação Infantil. No entanto, a execução ficou em R$ 11 milhões. “Em contrapartida, quando a gente analisa o orçamento destinado para as creches parceiras, vemos um orçamento cada vez mais crescente. Então, apenas em 2025 foram destinados R$ 68 milhões para esse conveniamento”, pondera. “É muito importante que, para se pensar políticas públicas, inclusive para redução das desigualdades, pensarmos em creches que tenham boa estrutura, vagas e que consigam também atender aquela criança e contribuir para o desenvolvimento da sua família”. Em nota, a Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza (SME) respondeu que "a execução foi necessária por readequação financeira prevista no primeiro ano de gestão em relação às dívidas herdadas da gestão passada". E acrescentou que a construção de 6 Centros de Educação Infantil estão em andamento. Sobre as vagas em creches, a SME afirmou que "existe um edital de chamamento em andamento para as regiões de maior número de crianças cadastradas. Além disso, será lançado um credenciamento contínuo que ficará aberto recebendo inscrições de organizações da sociedade civil o ano todo, para a abertura de novas creches parceiras." Veja os vídeos que estão em alta no g1 Creches conveniadas Conceição Cavalcante, coordenadora da Educação Infantil da Secretaria da Educação de Fortaleza, defende a estratégia das creches conveniadas pela Prefeitura como uma forma de atender à demanda atual, já que a construção de novas unidades exige anos. “Quanto mais cedo a gente conseguir garantir esse acesso para as crianças na Educação Infantil, mais oportunidades de desenvolvimento, de aprendizagem ela vai ter”, contextualiza. “Estamos garantindo outros direitos da criança: direito à proteção, direito à segurança alimentar e a construção, por vezes, vai demandar mais tempo", acrescenta Conceição. Com isso, destaca ainda a coordenadora, existe uma comissão de monitoramento que faz fiscalizações para averiguar a qualidade das estruturas parceiras com base na Lei 13.019 chamada de Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil. O texto estabelece o regime jurídico das parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil, em regime de mútua cooperação. Mães que exercem cidadania Fiscalizações acontecem para evitar tragédias como a que aconteceu numa creche conveniada no bairro Parque Santa Maria, em 23 de maio de 2018. Naquele dia, a estudante Hannah Evelyn, de 4 anos, morreu depois de cair numa fossa séptica que cedeu enquanto ela brincava com outros três colegas. “Eu não consigo esquecer. Minha filha na época estudava lá. Poderia ter sido a minha filha, poderia ter sido a filha de qualquer uma de nós”, conta, sem conseguir evitar o choro, Cristiana Alves. Ela é coordenadora do grupo Comissão de Mães do Parque Santa Maria, criado logo após a morte de Hannah, para cobrar melhorias estruturais e na qualidade do ensino. “Em anos anteriores, quando chovia, as paredes davam choque nas crianças. Telhado sempre quebrado, caixa d'água sempre com problema. O chão do pátio era totalmente insalubre”, lembra sobre o local onde houve a morte da menina. No momento, o grupo é formado por 6 mulheres que se reúnem e fiscalizam creches e escolas da região, para verificar problemas como infiltração, ausência de faixa de pedestres, falta de vagas ou de professores. As mães fotografam, procuram a Secretaria da Educação de Fortaleza, abrem ofícios, pedem apoio do Ministério Público. A articulação, inclusive, resultou na criação do Centro de Educação Infantil Laís de Sousa Vieira Nobre, inaugurado em 2020. Hoje, 266 crianças de até 3 anos estão matriculadas em tempo integral. " O olhar dos nossos filhos, usufruindo desses espaços e as gerações que estão vindo, a gente acredita muito que a educação é capaz de quebrar muros da desigualdade social", complementa. Janela de oportunidades Maya já apresenta mudanças positivas nos primeiros meses na creche. Carlos Marlon/ SVM. Existe uma janela de oportunidades na Primeira Infância capaz de mudar a trajetória de um ser humano e interromper ciclos de pobreza, como avalia Mariana Luz. “O bebê está aprendendo na máxima potência, quantas vezes a gente percebe que um bebê em menos de um ano começa a balbuciar palavras, a engatinhar, a andar... São tantas coisas que um bebê faz em um período tão curto de tempo e isso representa a ebulição cerebral que está acontecendo na cabecinha desse bebê”, explica. “A neurociência comprovou que os bebês fazem até um milhão de conexões por segundo. A gente está falando que, até aos seis anos, constitui 90% do cérebro. Todo o desenvolvimento físico, motor, cognitivo e socioemocional acontece nesses primeiros seis anos de vida”, completa Mariana. Isso exige professores preparados, com materiais e infraestrutura qualificadas, “mas sobretudo se a gente tiver práticas pedagógicas adequadas para essa faixa etária”, completa Mariana. “A Primeira Infância não é feita só da Educação, é feita de uma abordagem intersetorial, precisa ser gerida por uma abordagem que também traga assistência social, saúde, lógica de combate à violência e do fortalecimento dessa parentalidade”, conclui. A psicóloga clínica, Mykaelle Silva, de 34 anos, conhece bem esse contexto, não só pelo conhecimento vindo com a profissão. Ao se tornar mãe da Maya, menina com Síndrome de Down, passou a enxergar a Educação com ainda mais importância. “Se não tiver uma boa Primeira Infância, é muito difícil ser um adulto que vai ter uma qualidade de vida. Então, acho que é a base. Por isso, nossa preocupação de onde vai estudar”, comenta Mykaelle, depois de passar 6 meses no processo de adaptação da filha à creche pública onde estuda. "Essa aqui é a base dela de socialização, de como ela vai lidar com outras crianças diferentes dela. Eu escolhi que ela começasse a estudar antes dos três anos. Eu vejo que é muito importante", diz. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

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